Um dia desses, rolou na lista “Palhaçada” uma discussão bem interessante.
O ponto de partida foi a pergunta “Existe ex-palhaço?“, feita pelo Dani que, em suas próprias palavras, considera o seu palhaço “meio aposentado”.
Várias pessoas deram suas opiniões, mostrando pontos de vista diversos e variados.
Após uma breve consulta, todos concordaram em trazermos algumas das respostas para o blog, como forma de esquentar ainda mais o debate – que está longe de chegar ao fim ou mesmo à alguma conclusão.
Por uma questão de organização, optei por listar as citações na mesma ordem em que apareceram na lista.
Alê Jung (eu) – “Pessoalmente, acho que nunca se deixa de ser palhaço. Pode-se deixar de atuar e se apresentar como tal, mas o mood fica para sempre.”
Rodrigo Robleño (artista mineiro, atualmente no Cirque du Soleil) – “eu costumo dizer que meu clown tá de férias, porque tem 3 anos que já não trabalho como “Viralata”… mas pra mim o termo mais adequado seria estou de “stand by”… porque, no momento que você sabe como “clicar” seu palhaço, ele já está lá, em algum lugar.”
Flavio Emilio Costa (palhaço Picaburu) – “(…) cabe ao ator, após uma interrupção, saber se vai ser ex-palhaço ou não. Saber se quer manter esta energia viva ou não.”
MaWá (palhaça Cremilda) – “Uma vez que ele foi acessado, ele está por lá. Só que a gente tem mil truques para acessá-lo, sentir a coluna, os olhos vivos, a vontade de fazer o que der na telha. Enquanto essas sensações puderem ser alcançadas (em maior ou menos escala), o palhaço está lá.”
Marcos Cestari (palhaço Duílio) – “Morrer de inanição, estar adormecido, mas pronto pra ressurgir, desistências, reticências…
Ao ponto de vista deste que vos escreve a nada disso o palhaço se deve. Não tenho esse hábito de tratar o palhaço como se fosse uma posse que me foi concedida pelo mundo. Falar em terceira pessoa de uma coisa absoluta que sou eu? Tratar disso como se fosse um personagem, ao qual a liberdade é plena e a responsabilidade é mera conveniência?”
(…)
Só nos basta respirar e olhar. E esse olhar não é uma construção exata com manual, relógio de ponto e chamada oral. Ele é o que nós somos. Ele vem de dentro da gente não foi decorado e milimetricamente elaborado. Aos poucos vamos nos expondo, e assim cada vez mais esse Ser primitivo, perdido no limbo, aflora. Essa percepção do indivíduo é que nos torna cada vez mais palhaços.
O nariz em si, convenção identificatória ou não, nos exacerba esse estado pleno de Ser. Uso outro nome para isso, sim, figurino, uma voz que se altera sozinha sem testes e premonições, acessórios, sei fazer algumas peripécias, tudo isso não se vale se nos esquecermos que quem é o palhaço é a gente mesmo. É a mesma pessoa. A mesma pessoa em
um estado onde as coisas sim acontecem, porque a gente deixa a vida respirar e viver um pouquinho, sem puni-la e controla-la a todo tempo.
E ai o olhar é pleno e verdadeiro.
Por assim sendo, NÓS estamos vivos. Alguns deixam de aceitar, crer ou gostar desse turbilhão de emoções, sentimento e por vezes tormentos que nos assola o corpo, a cabeça e a alma. Aí partem para outros estares, não se sentem confortáveis nessa busca individual e profunda. “Mas já estiveram lá e não se sentiram confortaveis, ou sabe-se lá.”
Silvia Leblon (palhaça Spirulina, atriz, professora de técnicas de clown) – “aprendi e acredito que palhaço só existe na frente do público. É arte difícil e exige muito treino. Penso que todos nós somos aprendizes, estudiosos do assunto. Se trabalharmos muito como palhaços, pode ser que nos tornemos palhaços de verdade. É uma profissão. Se alguém se sente ou se acha palhaço, isso não garante que é. Tem que conhecer as regras e trabalhar.
Entrar em contato com o universo do palhaço, com as regras do jogo, praticar na sala, pode nos trazer muitos benefícios, mas não nos faz palhaços. O trabalho continuado é que pode nos levar a ser reconhecidos pelo público como tal.”
E você? O que pensa do assunto?
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